quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A Química e a diversidade de aromas dos vinhos

Quem já participou de uma dessas degustações conduzidas por um especialista ou acompanha as resenhas dos críticos mais badalados na imprensa especializada devem ter se perguntado como eles encontram os mais variados aromas dentro da taça, se realmente é possível que estes aromas estejam presentes ali.
Impressiona, tem sua beleza, mas também desanima, né? Aquela amora, o café, as flores, o mel, Os aromas dos vinhos, assim como a crase na língua portuguesa, não estão aí para humilhar ninguém. Eles existem e - isso é importante - não são afetação de enófilo metido a besta e sim sinônimo de qualidade do vinho. OK, às vezes este povo exagera, e mente um pouquinho, mas é a parte mais lúdica de uma degustação. Associar os possíveis aromas de um vinho a um repertório pessoal e tentar identificá-los e descrevê-los é parte do desafio. E da diversão.
agora Se o teu negócio é só beber e ainda precisa se convencer da importância do aromas, e da diferença que eles fazem ao vinho, faça uma experiência muito simples. Tome um gole de um vinho. Agora repita a operação tampando o nariz. Sentiu? Sentiu o quê? Quase nada, né? É a prova dos noves da ligação daquilo que se cheira com aquilo que se come, do olfato ao paladar. Mas não fique desesperado se você não sentir muita coisa nas primeiras vezes que meter o nariz no copo, e não recitar um poema de aromas como no exemplo acima. O reconhecimento tem a ver com memória, experiência pessoal e treino, muito treino. Se você é do tipo que nunca passou perto de uma horta, não manuseia temperos e desvia da cozinha fica difícil identificar aqueles aromas de pimenta-do-reino e especiarias que geralmente aparecem nos vinhos elaborados com a uva shiraz, por exemplo. Em qualquer situação, vinho e comida sempre se encontram... Se teu conhecimento de flores vem do papel de parede do computador também fica complicado reconhecer uma violeta em um tinto português de touriga nacional ou em um malbec argentino de boa extração. E por aí vai.

Mas vamos deixar claro uma coisa. Vinho não é suco de de padaria, só tem uma fruta lá dentro, a uva. Outra coisa, as rosas plantadas próximo a alguns vinhedos não transferem o seu perfume ao vinho. Elas estão ali para alertar o vinhateiro do perigo iminente de uma praga, pois são mais frágeis que as parreiras. O perfume das rosas chegam de outra maneira. E também ninguém joga café, mel ou frutas brancas e vermelhas no mosto na hora da fermentação.

Aquela amora, o café, as flores, o mel, enfim, os descritivos aromáticos, são resultado de vários fatores desde propriedades químicas da uva até a própria elaboração do vinho - vinificação, leveduras utilizadas, métodos de envelhecimento - e variam de percepção de pessoa para pessoa.

Quando você inala os aromas de um vinho você está de fato em contato com uma série de substâncias voláteis que flutuam no espaço vazio da taça - por isso que balançamos a taça, para que estas substâncias se misturem ao oxigênio, revelem sua grandeza e se modifiquem.

O que se percebe no nariz, seja qual for a origem, são moléculas aromáticas, a exemplo do linalol, do nerol e do limoneno, encontrados também em frutas e flores e chamados de aromas livres pela química. São compostos com nomes estranhos que vamos citar só para justificar a pesquisa: terpênicos, ésteres, fenóis voláteis, alcoóis, aldeídos e acetonas, acetatos, lactonas, hidrogenados, sulfurados, etc. Um pinot noir é geralmente associado ao aroma da cereja, mas você pode comentar que percebeu um 4-etoxicarbonil-y-butirolactona na sua taça, se preferir. Outros exemplos dos compostos químicos presentes nos vinhos e os aromas que entregam:
Ésteres: octanoato de etilio. Aromas: abacaxi, peras.

Composto terpênico: Limonemo e citral. Aromas: casca do limão, lima, laranja.
Alcoóis: álcool feneletílico. Aromas: rosas e mel.
Ácidos: ácido acético. Aromas: vinagre.
Lactonas: sotolon. Aroma: frutos secos.
Fenóis voláteis: 4-metil-2-metoxifenol. Aroma: fumo.
A coisa pode perder ainda mais a poesia. O composto sulfurado p-mentha-8-thiol-3-one, encontrado em alguns brancos da uva sauvignon blanc da região francesa do Loire, também é observado na urina do gato. Portanto, em grandes concentrações, o tal xixi de bichano é de fato um aroma presente neste branco, e, creia, sinal de qualidade da bebida!

Outras aromas se originam das leveduras utilizadas na fermentação. Ao transformar açúcar em álcool elas criam dezenas de compostos químicos aromáticos, como frutas tropicais, pão torrado e ainda produzem fenóis voláteis que lembram aromas de terra, apesar de não ser originários do solo.

Os aromas, indicam estudos recentes, não vêm somente da natureza, também são produto da ação do homem, resultado de gerações de vinicultores que adaptaram seus vinhedos e ajustaram a fermentação até atingir o máximo que o vinho podia proporcionar.

Entenda como:


Os compostos aromáticos são divididos em três grupos:
Primário (ou varietal) - vem da própria uva e lembra frutas frescas e maduras, flores, vegetais e minerais.
Secundário - resultado do processo de fermentação, vinificação, não são originários da uva, são aromas de madeira, leveduras.
Terciário (ou bouquet) - é a sensação olfativa que o vinho desenvolve depois de engarrafado e envelhecido por vários anos.

Entenda o seu crítico, quando ele diz que sente aromas...
Frutados - Cassis, cerejas, ameixas, goiaba, framboesa, groselha (vermelhas, nos vinhos tintos); pêssegos, abacaxi, maracujá, melão, pêssego (brancas e amarelas, nos vinhos brancos).
Florais - Rosas, violetas, jasmins, acácias, tília, etc.
Especiarias e condimentados - Pimenta, pimenta-do-reino, cravo, canela, alcaçuz, noz-moscada, etc.
Animais - Caça, carne, pelo molhado, couro, etc.
Vegetais e herbáceos - Palha, grama, feno, cana-de-açúcar, cogumelos, chá, fumo, pimentão, etc.
Minerais - Petróleo, terra, pedra de isqueiro, etc.
Químicos - Fermento de pão, enxofre, removedor de esmalte, etc.
Queimados (ou empireumáticos) - Alcatrão, tostado, defumado, caramelo, café torrado, piche, etc
Amadeirado - Carvalho, baunilha, cedro, eucalipto, etc
Outros aromas– chocolate, mel, caixa de charutos, suor, etc

Para facilitar um pouco a identificar estes aromas nas primeiras vezes, deixo algumas dicas dos aromas mais comuns que encontramos:
Nos brancos: flores brancas e amarelas ou frutas brancas e amarelas: maça, pera, abacaxi, pêssego, maracujá, lírio, jasmim etc.
Nos tintos: flores ou frutas vermelhas. Rosa violeta, morango, cereja, framboesa, amora, groselha, cassis.
Vinhos jovens: flores e frutas frescas ou vegetais que evoluem com o envelhecimento para os aromas de frutas maduras, secas ou geleia.
Vinhos mais envelhecidos: aromas animais ou de decomposição.

O envelhecimento em barricas de carvalho também agregam aromas ao vinho.
Barrica Européia coco, nozes, cravo, pimenta preta.
Barrica Americanabaunilha, noz-moscada, castanha, coco, cedro, frutas secas.

Tipo de tostagem:
Levemel, chocolate branco, serragem.
Média amêndoas tostadas, caramelo, chocolate. Tabaco, café expresso e tostado.
Fortefumo, pão tostado, grafite, chocolate preto, fumo.

Parece muito complicado? É um pouco, já escrevi aqui que vinho não é exatamente um tema simples. Para beber ninguém precisa aprender nada. Basta virar a taça. Para conhecer, e tirar mais prazer da bebida, é preciso se dedicar um pouco e observar com mais atenção o que vem da garrafa. O tema aromas entra um pouco nesta nebulosa área que tanto apaixona quem descobre seus mistérios como afasta quem enxerga neste jogo uma complicação desnecessária Lembrando sempre que todos somos capaz de detectar aromas, alguns com mais dificuldade outros com menos, mas tudo é questão de prática. A princípio é comum encontrar dificuldade em identificar , mas com algumas informações, concentração e persistência, nosso cérebro vai aprendendo a decodificar e traduzir estas moléculas em sensação e palavras.



4 comentários:

  1. Querida Solange - Muito bom o tema, pra mim os aromas ainda são "lendas urbanas"( não desqualificando que tem essa capacidade, mas eu ainda não cheguei a tal ponto). Certa vez em uma palestra com degustação, na hora dessa, a professora pegou a taça e começou a falar dos aromas sentidos para a turma, e perguntou se todo mundo estava sentindo. Falei pra ela: "eu não sinto nada", ela respondeu:"então você não tem nariz". Enfim...espero um dia chegar lá, um passo que fiquei feliz da vida foi ter conseguido sentir um sabor de morango no paladar,, num vinho Rose Malbec/Shyra. Fiquei feliz da vida na hora. Mas no fim das contas o importante é beber!

    ResponderExcluir
  2. Muito bom..querida Solange..mas vou continuar só bebendo.........

    ResponderExcluir
  3. querida Solange Lendo seu texto até me animei a prestar um pouco mais de atenção nos vinhos: sou dessas que não percebem absolutamente nenhum dos tais aromas.beijos

    ResponderExcluir
  4. a querida solange - Isso não é uma postagem de blog.É um tratado sobre aromas.Muito bom.Parabéns.

    ResponderExcluir

Deixe Seu Comentário é de bom interesse para o meu Crescimento! Obrigado!