
É interessante e, ao mesmo tempo, desesperador, ver como muitas pessoas - para não dizer a maioria delas - deixam evidente a necessidade de criar verdades e respostas absolutas para as coisas.
No mundo do vinho isso não é diferente - talvez seja até mais evidente. Quanto mais o sujeito bebe, mais acredita que conhece vinho e mais tenta criar uma realidade que, para ele, deveria valer para todos. Alguns simplesmente se fecham em suas geniais e reconfortantes descobertas; outros, porém, tentam convencer o mundo de que descobriram o nirvana, aquele lugar ao qual nenhum outro homem foi capaz de chegar.
Um exemplo típico é a discussão a respeito da suposta superioridade dos vinhos europeus em relação aos vinhos do Novo Mundo - como se todos os vinhos da Europa fossem iguais e como se todos os vinhos do Novo Mundo tivessem o mesmo gosto e padrão de qualidade.
Frequento rodas de bebedores do Velho Mundo e de bebedores do Novo Mundo e, portanto, tenho bebido vinhos do mundo todo, o que me habilita a fazer alguns comentários a respeito dessa guerra sem vencedores. O primeiro deles é que esses "combatentes" não percebem que vinho é prazer e, portanto, é algo subjetivo, estritamente relacionado a experiências e gostos individuais. Claro que há padrões mínimos de qualidade, porém, esses padrões podem existir em diferentes contextos. Exemplo: os defensores dos vinhos tradicionais europeus criticam a fruta e o uso da madeira nos vinhos ditos, de forma pejorativa, "novomundistas"; já os amantes dos vinhos do Novo Mundo reclamam justamente da falta desses atributos nos vinhos mais tradicionais.
Também há os que gostam de vinhos mais potentes e jovens, que são duramente criticados por quem bebe vinhos quase moribundos, com aromas que, para o primeiro grupo, podem remeter à putrefação. Mas um bebedor de vinhos "evoluídos" - reparem o duplo sentido deste adjetivo - vai dizer que "agora sim o vinho está redondo, com tudo no lugar", como se existisse uma forma de bolo ou um quebra-cabeça a ser montado.
Outro clássico é a eterna batalha entre quem idolatra Barolo e quem acha que é na Toscana que se faz o melhor vinho da Itália. Entre Bordeaux e Borgonha é a mesma coisa. E ambos desgostam dos vinhos do Rhône, que são, supostamente, menos nobres do que os produzidos nos "grandes crus" da Borgonha ou de Bordeaux. Francês também vai dizer que vinho italiano é rústico e sem elegância... Mais um exemplo: já ouvi gente jurando que vinho branco é coisa para mulher e que homem bebe vinho tinto. Rosé, então, O ponto é: por que raios um dos dois grupos deveria estar certo se o vinho nada mais é do que a elaboração de uma bebida, pelo homem, a partir de matérias primas, equipamentos e outros recursos que ele encontra para produzir algo que o agrade e o deixe feliz? Fala-se de terroir e método de produção como se um fosse o certo e os demais "coisas da moda" ou "invencionices". Será que esse "certo" está escrito em algum livro sagrado ainda não descoberto por seres humanos imbecis como eu???
Tenho ficado meio de saco cheio dessas verdades absolutas e de tanto preconceito e arrogância no mundo do vinho. Já me peguei envergonhado de dizer que gostei de um vinho norte-americano, com bastante coco queimado, cujas uvas foram colhidas 5 anos atrás, em um grupo que só bebe vinhos do Piemonte com mais de 10 anos.
No fundo, o que eu acho é que as pessoas sentem a necessidade de conhecer a verdade e de se confortar e se acomodar nela. É complicado admitir que, mesmo bebendo vinho há 30, 40 ou 50 anos, ainda é possível se surpreender com algo diferente, nunca provado - ou provado, mas em outro momento, outra safra, com outra companhia, em outra situação. Ter de admitir que ainda não sabemos nada, por mais que busquemos conhecer esse fantástico e enigmático mundo do vinho, parece causar desconforto e angústia.
A verdade, se é que ela existe, é que é muito mais cômodo acreditar que descobrimos o que é melhor para nós e para a humanidade do que admitir que as coisas mudam a cada dia, inclusive nós mesmos. Somos muito mais felizes assim, fechados em nossas verdades, na nossa eterna e ignorante sabedoria.







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